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Roteiro em CAPITAL
 ideal para 1 DIA

Roteiro cultural e gastronômico nos antigos bairros operários da Mooca e do Brás

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Por Thatiane Ferrari

Atualizado há 3 meses

Descubra o que há de melhor em dois dos bairros mais tradicionais de São Paulo

Com características semelhantes e unidos pelos trilhos da ferrovia, a Mooca e o Brás viram de perto as transformações da sociedade paulistana.

Em meio aos imensos galpões e às chaminés das fábricas, os dois bairros abriram os braços nos séculos 19 e 20 para receberem os imigrantes europeus, a maioria deles vindos da Itália.

Instalados em casas, pensões e vilas, esses homens e mulheres contribuíram não apenas com a sua força de trabalho, mas também com seus costumes e tradições.

Neste roteiro convidamos o viajante a conhecer esse passado cheio de histórias, enxergar os pontos mais tradicionais e também descobrir locais contemporâneos que de certa forma dialogam com esse passado. Vamos começar a jornada?

Benvenuto

Benvenuto
Thatiane Ferrari

A melhor forma de começar um roteiro na região é pelo Museu da Imigração. Antiga hospedaria, o local inaugurado em 1887 servia para receber os estrangeiros recém-chegados às terras tupiniquins.

Eles vinham em grandes embarcações que tinham como destino o porto de Santos, no litoral paulista. De lá seguiam viagem pela estrada de ferro, até chegar à estação da Hospedaria do Brás, de onde eram encaminhados para o alojamento.

Por lá havia um acolhimento com serviços básicos como alimentação, consultas médicas e possíveis vagas de empregos, que poderiam ser nas grandes fábricas da capital ou em lavouras no interior.

Transformado em museu, o local abriga uma exposição permanente que aborda os aspectos culturais na formação do país com a chegada de mais de 2,5 milhões de pessoas de fora.

Dica dos locais

Celebrando esse encontro de nações, o Museu da Imigração realiza todos os anos a Festa do Imigrante, um evento que reúne nos jardins da antiga hospedaria o melhor da gastronomia, arte e cultura.


Bagagem cheia de sonhos

É possível fazer uma viagem no tempo no mesmo lugar onde milhares de imigrantes chegaram trazendo seus sonhos, saudades e poucas mudas de roupas na mala. A Maria Fumaça da antiga Companhia São Paulo Railway, que fazia o trajeto de Santos até o Brás, permanece em funcionamento oferecendo um passeio cheio de histórias.

A locomotiva de 1922 serve como guia para dois vagões, um de 1928, com poltronas individuais e o outro de aço de carbono da década de 1950.

A duração do passeio é de 25 minutos e conta com monitores explicando o processo histórico que envolvia a jornada.

Dica dos locais

O percurso ocorre aos finais de semana para visitas espontâneas e durante a semana apenas para grupos. Os ingressos podem ser adquiridos no local.


Sabor e afeto

Sabor e afeto
Thatiane Ferrari

Difícil falar dos antepassados e não lembrar das delícias que sempre acompanham as prosas de família. A Cantina SP está instalada estrategicamente nos jardins da hospedaria: assim fica mais fácil aliar as antigas histórias com o afeto que só as comidinhas são capazes de oferecer.

Dica dos locais

Aproveite para experimentar os bons cafés, bolos e doces antes ou depois da visita ao museu.


Time fabril

Time fabril
Thatiane Ferrari

De lá seguimos para conhecer de perto uma das maiores paixões dos mooquenses, o Clube Atlético Juventus. Criado em 1924 por operários fabris imigrantes italianos, o time ganhou o nome em homenagem ao Juventus de Turim, a cidade do norte da Itália.


Donos da casa

Donos da casa
Thatiane Ferrari

Instalado na Rua Javari, o Estádio Conde Rodolfo Crespi é a casa do Juventus desde a sua fundação.

Dica: Para quem quiser assistir um jogo a caráter é só antes dar uma passadinha na Camiseteria di Mooca e comprar um manto. Tem vários modelos infantis, femininos e masculinos, é só escolher.


Clássico dos clássicos

Clássico dos clássicos
Luca Meola

Da Sicília, no sul da Itália, para a Zona Leste de São Paulo! Os cannolis se tornaram presença fundamental nos jogos do Juventus. É impossível assistir a um jogo do Moleque Travesso (apelido do time) sem se deliciar com um desses.

Os do Seu Antonio Cannoli mantém a receita de seus avós e são vendidos apenas em dias de partida, em uma barraquinha dentro do estádio. Desde 1970 ele está por lá servindo o doce com uma massa fininha, crocante e bem recheado.


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Balada de família

Javari Streat Park: cadeiras de praia e grafite na parede completam o visual
Thatiane Ferrari

Para quem não conseguir provar a iguaria em dia de jogo, tem outro jeito. É que bem na frente do estádio foi inaugurado com uma pegada bem urbana o Javari Streat Park.

Além de vender alguns cannolis do Seu Antonio, o local oferece uma série de opções gastronômicas como hambúrguer, pizzas e porções.

Dica dos locais

Não é exagero dizer que parece o quintal de casa, já que o lugar tem um ar descontraído e é bem frequentado pelos moradores locais. Aberto de quarta a domingo, o Javari Streat Park tem música ao vivo, recebe crianças e é pet friendly.


Culinária italiana de primeira qualidade

Ela é conhecida também por seus cannolis, mas a verdade é que a mais tradicional confeitaria e pastifício da região brilha mesmo quando o assunto são seus panetones.

Em atividade no mesmo local desde 1935, a Di Cunto fabrica de maneira artesanal seus produtos. Como se pode imaginar, é de comer rezando!


Para quem tem fé

Para quem tem fé
Thatiane Ferrari

Aliás, falando em rezar, um passeio que se preze por um dos principais redutos italianos na cidade tem que ter alguma igreja católica.

Com suas obras iniciadas em 1937 e concluída em 1950, a Igreja São Rafael possui uma arquitetura com elementos do art Déco por dentro e por fora.

Porém, as paróquias mais tradicionais da região são outras. Na Mooca, é a Igreja de San Gennaro que possui mais devotos, principalmente por ser uma das responsáveis pela evangelização da comunidade de imigrantes. A festa de San Gennaro, com muitas delícias italianas é uma das mais tradicionais da cidade.

Já no Brás, os napolitanos trouxeram do sul da Itália a devoção pela Nossa Senhora de Casaluce. Como forma de ligação com sua terra natal, os fiéis construíram em 1900 a igreja em homenagem a ela, a única fora da Itália.

Com o surgimento da paróquia, começava também a mais antiga festa italiana da cidade de São Paulo, realizada todos os anos no mês de maio.


Origem operária

Origem operária
Thatiane Ferrari

Além da religiosidade, os imigrantes trouxeram seus sentimentos de luta e justiça social e começaram a dar as caras já nas primeiras décadas do século 20. Um dos momentos mais simbólicos foi a Greve Geral de 1917, quando centenas de trabalhadores, em sua maioria mulheres, resolveram paralisar os trabalhos por conta de uma série de reivindicações trabalhistas por melhores condições. Os operários da Mooca e do Brás tiveram um papel muito importante nesse período.

O principal palco dos protestos foi o Cotonifício Rodolfo Crespi, uma indústria têxtil. O edifício ficou abandonado por anos, porém em 2003 foi comprado por uma rede de supermercados. A certo custo, sua fachada original foi mantida.


Para ir de carro

É possível fazer um passeio pelas ruínas da antiga vila operária

Um pouco distante, mas com o mesmo propósito, a Vila Maria Zélia é mantida como um símbolo de resistência e memória da cidade.

Criada para abrigar os funcionários da antiga Tecelagem de Juta, a vila operária foi projetada pelo francês Paul Pedraurrieux a pedido do médico Jorge Street, herdeiro da fábrica. A ideia era oferecer um lugar digno para os trabalhadores e próximo ao seu local de trabalho.

Ilustração
Thatiane Ferrari

Por lá ainda é possível encontrar as ruínas das escolas de meninas e a de meninos, a Capela São José e a antiga farmácia, atualmente utilizada como sede do Grupo XIX de Teatro.

Por conta do tardio tombamento muito foi perdido, mas ainda assim o local vale a visita.

Dica dos locais

Por se tratar de uma vila com comércio e residências, existem algumas restrições quanto ao uso de câmeras fotográficas.


Comida da Nona

Depois de tanto zanzar, é hora de fazer algo que os italianos amam: comer! Destaque para os restaurantes mais tradicionais, como a Cantina Gigio, que está no Brás desde 1971, servindo fartos pratos em um ambiente festivo.

Mantendo as tradições e já na terceira geração de administradores, outra que merece os louros é a Pizzaria Castelões. Foi inaugurada em 1924 e é a mais antiga da cidade, mantendo fornecedores, receitas e o mesmo forno desde 1931.


Mais Dante que Camões

Mais Dante que Camões
Thatiane Ferrari

Como dá para se imaginar, houve épocas em que o idioma de Dante era mas falado que o de Camões por lá. Agora, imagine nesse cenário alguém chegar querendo vender comida árabe. Esse foi o desafio de um dos estabelecimentos mais tradicionais da região.

Os intensos fluxos imigratórios em São Paulo se deram por volta dos anos de 1900. Porém, nas décadas seguintes a chegada de pessoas de outras nacionalidades continuaram, principalmente da Síria e do Líbano.

Instalada no mesmo lugar desde 1967, a Esfiha Juventus teve no início que distribuir produtos de graça, pois ninguém na região conhecia a culinária árabe. Hoje em dia a casa é referência em gastronomia e é um dos maiores sucessos da Mooca, mantendo as origens e a receita familiar.


Reocupação dos espaços

Reocupação dos espaços
Thatiane Ferrari

Os antigos espaços industriais que com o tempo foram sendo desativados e se tornando ociosos estão aos poucos voltando a serem ocupados. Há na região uma onda de empreendedorismo criativo que vem trazendo um ar mais alternativo para áreas antes abandonadas. Ao caminhar pelo bairro, percebemos que há vontade de construir o novo, ao mesmo tempo em que se mantém o tradicional.


No estilo vanguarda

No estilo vanguarda
Thatiane Ferrari

Apostando nisso, os principais restaurantes dessa nova geração conquistam corações. Quem chegou dando os primeiros passos para a transformação da região foi o Cadillac Burguer, do empresário Tatá Crippa. A casa é a primeira hamburgueria a servir a carne 100% Grass Fed, proveniente do gado com uma alimentação natural.

Os negócios se expandiram e com ele chegou também o Cadillac BBQ, uma casa especializada no churrasco estilo texano onde a carne é assada e defumada, passando por uma preparação que pode levar mais de 15 horas.


Cozinha com sotaque

Cozinha com sotaque
Divulgação

Outro que chega com uma proposta de ocupar um área antes esquecida é o Restaurante Hospedaria.

Comandado pelo chef Fellipe Zanuto, ele preza em seu cardápio por pratos com vínculos, já que o conforto dos imigrantes vinham das lembranças por meio da comida. O local conseguiu manter suas características de antigo armazém e oferece um ar de cozinha com estilo de refeitório de chão de fábrica.


De cara nova, meu!

De cara nova, meu!
Thatiane Ferrari

Está nas ruas esse novo espírito criativo da região que serve como um portal da Zona Leste. Dando uma vida diferente ao bairro, o grafite “Bem-vindo à Mooca, Bello” recepciona todos que passam pelo viaduto Professor Alberto Mesquita de Camargo.

Já próximo às ruas Borges de Figueiredo e da Mooca, outro bem colorido chama a atenção com várias referências: as pizzas, os operários e os moradores na janela.


Tutti buona gente

Tutti buona gente
Divulgação

É de se imaginar que um bairro com tantas tradições familiares e tendo como base a classe operária teria atrações coletivas. Aliás, um dos grupos mais emblemáticos da música paulistana vem de lá: os Demônios da Garoa são das região.

Aos que tem saudade desse tempo a dica é visitar o Casarão do Vinil, um clássico da região com mais de 700 mil discos no acervo. Com certeza terá algum com o Samba do Arnesto, aquele que mora no Brás…


Ciao ou tchau

Ciao ou tchau
Divulgação

Já as opções noturnas englobam diversas tribos. Para os mais ligados no retrô, a dica é conhecer o Roller Jam, uma casa especializada em patins. Dá para curtir a pista patinando, enquanto o Dj toca clássicos de 1970 e 1980.

Quem gosta de tecnologia pode passar a noite em um corujão de Counter-Strike em uma das maiores Game Houses do mundo, a Mega Arena Max 5.

Para quem prefere algo mais intimista a sugestão é fechar a noite com uma pitada de jazz no Boutique Vintage Brechó e Bar, novo na Mooca, ou ir ao espaço Nos Trilhos, que promove festas e eventos bem em meio a diversas locomotivas e vagões. Confira as programações!


Como circular?

O roteiro começa na região próxima à Estação Bresser Mooca (Linha 5-Vermelha do metrô) e de lá é possível seguir a pé para os demais lugares, já que a área é bem plana.

Para visitar a Vila Maria Zélia, convém usar carro.

Tome cuidado nas partes mais próximas à linha do trem e à Avenida Radial Leste.

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